Biografia

O trabalho de Nanna Martins se desenvolve na interseção entre arte contemporânea, design têxtil e memória material, tendo como eixo central a ancestralidade negra e afro-descendente como território de construção simbólica, estética e política.
Sua produção parte do entendimento do corpo, do tecido e dos materiais como arquivos vivos, capazes de registrar histórias que atravessam gerações. Linhas, tecidos, pedrarias, sementes, búzios, madeira e pequenos metais não são apenas elementos formais, mas portadores de significados ancestrais, espirituais e culturais, articulando passado, presente e futuro em uma mesma superfície.
Formada em Design de Moda, a artista desloca técnicas tradicionalmente associadas ao vestuário e ao fazer manual para o campo das artes plásticas, tensionando as fronteiras entre arte, artesanato e design. Esse deslocamento opera como gesto crítico, questionando hierarquias históricas que marginalizaram práticas ligadas ao fazer têxtil e às culturas afro-descendentes, frequentemente relegadas ao campo do utilitário ou do decorativo.
A ancestralidade negra, em sua obra, não se manifesta como ilustração direta ou narrativa literal, mas como estrutura invisível: ritmo, repetição, camadas, gestos manuais e escolhas materiais evocam saberes transmitidos oralmente, rituais de cuidado, resistência e permanência. O uso de sementes e búzios, por exemplo, remete tanto a cosmologias afro-atlânticas quanto à ideia de origem, ciclo e continuidade.
Nanna Martins investiga o tempo como matéria plástica. Cada obra carrega marcas de lentidão, acúmulo e presença física do fazer, em oposição à lógica da produção acelerada e descartável. O processo manual torna-se um ato de reconexão com saberes ancestrais e, simultaneamente, um posicionamento político diante da contemporaneidade.

Seu trabalho propõe uma experiência sensorial e contemplativa, convidando o observador a se aproximar, percorrer texturas e reconhecer, nos detalhes, narrativas que não foram plenamente registradas pela história oficial. As obras funcionam como campos de escuta, onde memória, identidade e espiritualidade se entrelaçam.
Ao articular ancestralidade negra, materialidade e linguagem contemporânea, Nanna Martins constrói um corpo de trabalho que afirma a arte como espaço de pertencimento, resistência e reescrita simbólica, ampliando as possibilidades de representação e visibilidade das heranças afro-descendentes no campo da arte brasileira.
